Tudo o que conhecíamos do universo Marvel nos cinemas se limitava à ficção científica. Tínhamos Tony Stark e sua armadura em Homem de Ferro, e Bruce Banner em sua incansável fuga do exército americano em O Incrível Hulk . E agora, em Thor, somos apresentados a uma parte desse mundo até então desconhecida: a parte mitológica.
Na trama, conhecemos Thor, um jovem e arrogante deus. Ávido por batalhas, o Deus do Trovão não perde uma oportunidade de ir para o combate. Até que essa fome por batalhas vai longe demais, e o jovem deus desencadeia uma guerra contra Jotunheim, mundo habitado pelos Gigantes de Gelo. Uma guerra que seu pai, Odin, se esforçara muito para evitar. Decepcionado com o comportamento do filho, o Pai de Todos decide banir Thor do reino de Asgard e mandá-lo sem poderes para a Terra, para ensiná-lo uma lição.
As cenas em Asgard ficaram fantásticas. O mundo dos deuses é rico em detalhes, que enchem os olhos. Sinceramente, não me lembro de ter visto um lar divino tão belo quanto este em outro filme ou HQ, de qualquer mitologia. Todas as partes em CG ficaram bem feitas (a Ponte Arco-Íris é um ótimo exemplo), e não destoam dos cenários convencionais (como a sala do trono de Odin, muito vistosa). Mas belos cenários de nada adiantariam se a caracterização dos personagens fosse falha. Graça aos deuses (desculpem, não pude conter o trocadilho), não é o caso aqui.
Correndo o risco de cometer um pleonasmo, afirmo que Thor nos apresenta aos deuses mais divinos do cinema. Toda a delicada caracterização quase me fez acreditar que, se de fato existissem deuses, eles seriam como os do filme. Do modo pomposo de falar (mas sem soar artificial), aos elegantes uniformes (elegantes na medida certa, jamais soando ridículos como os deuses de Fúria de Titãs – a versão 2010, que fique claro) conspiram para isso. As atuações também não ficam atrás, pois a grande maioria dos personagens asgardianos foram muito bem interpretados. O papel de Thor caiu como uma luva para o ator australiano Chris Hemsworth, Tom Hiddleston interpreta Loki com toda a ambiguidade necessária ao personagem, e o Odin de Anthony Hopkins transpira sabedoria, própria de um rei. A ressalva do elenco asgardiano fica por conta de Rene Russo, que interpreta a esposa de Odin. A personagem quase não fala durante o filme inteiro, de modo que nem dá pra saber se a atriz foi ou não uma boa escolha para o papel.
Mas o longa não se resume apenas a Asgard. Há também as cenas terrenas, passadas no Novo México. É lá que Thor conhece um trio de cientistas, formado por Jane Foster (Natalie Portman), Erik Selvig (Stellan Skarsgard) e Darcy Lewis (Kat Dennings). Não vá ao cinema esperando de Portman uma atuação tão brilhante quanto a de Cisne Negro. Não que ela atue mal, é só que o filme é muito mais se simples que o drama de Aronofsky, exigindo muito menos da atriz. Aliás, não só Portman. Ninguém do trio cientista chama a atenção, ainda mais quando comparados aos onipotentes personagens asgardianos. A Darcy é apenas um alívio cômico, que nem sempre funciona. Jane Foster é a mocinha por quem Thor se apaixona, na história de amor mais mal contada dos filmes de super heróis. Fica claro que a intenção do romance é apenas para que o Deus do Trovão crie um certo vínculo com a Terra, para assim passar a protegê-la de futuras ameaças( opa, alguém aí disse Vingadores?). Então, acaba que o único personagem humano que desperta o mínimo de interesse no expectador é do Dr. Selvig, por conta de uma determinada cena onde ele faz referência a dois importantes cientistas do universo Marvel.
Depois do deslumbramento com a belíssima Asgard, fica difícil de se acostumar com as cenas terrenas, ainda mais quando elas se passam num lugar tão sem graça quanto o Novo México apresentado no filme. Os roteiristas (Mark Protosevich, Ashley Miller, Zack Stentz e Don Payne) aparentemente perceberam isso, tanto que tomaram duas providências para que os expectadores não saíssem da sala antes do fim do filme. A primeira delas é o uso do humor. Embora esse recurso tenha sido utilizado de maneira forçada através da personagem Darcy, foi aplicado de forma correta no Deus do Trovão. O roteiro soube se aproveitar muito bem da situação de ter um deus tentando se acostumar à vida na Terra. O melhor exemplo disso é a cena em que Thor adentra um pet shop, a procura de um cavalo. Curta, simples e hilária.
A outra providência foi mostrar mais do universo Marvel, dando um destaque maior para a SHIELD. É em Thor que descobrimos mais sobre alguns dos métodos de atuação da organização, e conhecemos um pouco melhor o agente Coulson (que se revela mais sério do que eu imaginei que fosse). Há também a tradicional participação de Stan Lee (dessa vez, como um motorista de caminhonete) e uma citação a Tony Stark. Coisas assim, simples, mas que fazem valer a pena o ingresso de qualquer fã. A única ressalva quanto a esses elementos extras do universo Marvel fica por conta da aparição do Gavião Arqueiro no longa. Fato: não podiam ter escolhido uma forma pior de apresentar o personagem aos expectadores. Ele está lá, apontando seu arco para Thor, recebendo instruções de Coulson… e só. Depois ele desaparece, e não ouvimos mais falar no coitado. A Marvel havia cometido um equívoco parecido em Homem de Ferro 2, quando apresentou a Viúva Negra ao público. Mas o caso do Gavião é muito pior, pois, além de não ter importância alguma na história, tem uma participação bem insossa. Se era para despertar a curiosidade dos expectadores, que tivessem feito apenas uma citação – algo que a Marvel faz muito bem, em todos os seus filmes. Do jeito que ficou, pareceu apenas uma aparição desnecessária e fora de contexto.
Thor cumpre muito bem seu papel como um filme de super herói. Gostei do filme, de verdade. No entanto, enquanto ele funciona dentro do universo Marvel, ele falha quando se traz à tona o fato de ser baseado na mitologia nórdica. Uma mitologia tão rica quanto a mitologia grega, recheada de detalhes, deixada de lado para que pudessem ser feitas as ligações com o universo Marvel. Realmente, uma pena. Mas a esperança não está perdida: a Marvel já manifestou o desejo por uma sequência, e se ela for feita da mesma forma que Homem de Ferro 3 está sendo planejado, é certeza de que veremos muito mais mitologia e muito menos universo Marvel. Quem sabe assim, a antiga religião dos povos escandinavos finalmente ganhe uma grande adaptação nas telonas?

[...] Negra e o Gavião Arqueiro (especialmente esse último, que teve apenas uns 20 segundos de tela em Thor), definir onde estarão Pepper Pots, Betty Ross, Jane Foster, Peggy Carter, e explicar POR QUÊ o [...]
[...] pela atuação de Robert Downey Jr., o personagem teria sido totalmente sabotado. Como já citei Thor, vale mais um comentário: nem o filme do deus nórdico nem este do Capitão conseguiram criar uma [...]
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