Crítica – Capitão América: O Primeiro Vingador

Acredito que a produção de um filme de época seja algo mais complicado que a produção de filmes passados nos tempos atuais. Afinal, é preciso criar todo um clima, que vai do enredo, passando pelas falas dos personagens, fotografia, design de produção, que faça o espectador acreditar na história que está sendo contada ali. E Capitão América, apesar de merecer destaque positivo em muitos aspectos, acaba não sendo tão imersivo quanto deveria, por conta de uma “maldição” que assombra todos os filmes da Marvel Studios: o longa-metragem dos Vingadores.

O próprio começo do filme já sabota totalmente qualquer tentativa de imersão por parte do espectador. Ele inicia-se no presente, com exploradores encontrando o famoso escudo do Capitão, como que querendo deixar explícito para quem está assistindo que “ó, esse filme se passa no passado, mas tem um link com os outros”. As referências ao restante do universo Marvel não param por aí: o Caveira Vermelha cita a mitologia nórdica logo na sua primeira aparição (referência a Thor), é mostrada uma das primeiras edições da Stark Expo (fazendo o espectador associar automaticamente com as edições mais recentes mostradas nos longas do Homem de Ferro), e a inclusão de Howard Stark, pai de Tony Stark, personagem desinteressante e que só foi incluído para fazer a conexão de Capitão América com as outras produções da Marvel Studios. Quando o estúdio vai perceber que o seu público não é burro?

Lamentável as referências ao universo Marvel sabotarem a experiência de imersão do espectador, ainda mais quando se percebe o quanto que a equipe técnica do longa se esforçou para deixar tudo o mais convincente possível. A fotografia de Shelly Johnson capta muito bem o clima da época, apostando num tom sépia nas cenas passadas na cidade, e num cinza forte durante as sequências nos campos de batalha, retratando de forma relativamente leve (comparado a outros filmes de guerra) a angústia vivida pelos soldados. A equipe de design de produção fez um trabalho muito bom construindo uma década de 40 não exatamente realista, apresentando alguns elementos típicos dos quadrinhos (muito perceptível no covil do Caveira Vermelha), mas sem fugir para o campo da fantasia. Nesse sentido, o filme não mede esforços para soar o mais crível possível, e consegue. Quanto a computação gráfica, o longa se dá muito bem em alguns aspectos, como a caracterização do Chris Evans magro, da mesma forma feita com os irmãos Winklevosses em A Rede Social. Mas o uso de CG também é falho, como mostra a cena do trem, onde os personagens ficam totalmente destacados do cenário pelo mal uso do chroma key. Por outro lado, é louvável observar que o diretor Joe Johston optou por não fazer tudo em CG, construindo alguns elementos importantes da película (como o rosto do Caveira Vermelha) inteiramente com maquiagem, sem recorrer a elementos computadorizados.

Falando em Joe Johnston, há anos que o diretor não participa de algum filme que chame positivamente a atenção por conta da direção, e não é diferente com Capitão América. Nos primeiros minutos do longa, é até perceptível que Johnston se esforça, focando o franzino Steve Rogers de um ângulo levemente mais elevado em algumas cenas, evidenciando a fragilidade do personagem. Mas durante todo o resto, Johnston trabalha no piloto automático. Sua direção jamais empolga, nem mesmo nas cenas de ação (e imagino que este seja o último trabalho de Johnston no gênero de ação, pois mesmo depois de trabalhar em Star Wars e de dirigir Jurassic Park III e O Lobisomem, é inadmissível que o sujeito não consiga fazer uma cena de ação que cative o público). Outro que também não captou o clima do filme foi o compositor Alan Silvestri. Todas as suas composições para este filme soam genéricas, nunca entrando em acordo com o belo trabalho do design de produção. Inclusive, a única música que capta bem o clima de Capitão América é a Star Spangled Man, que nem sequer foi composta por Silvestri (e sim por Alan Menken). Que Silvestri volte a colaborar com Robert Zemeckis, lá ele trabalha melhor.

Enquanto a direção e as composições são falhas, o roteiro de Capitão América é o melhor dos três últimos filmes do Marvel Studios. Stephen McFeely e Christopher Markus souberam montar um enredo conciso, sem exageros, e o mais importante – um personagem principal que sofre um desenvolvimento perceptível aos olhos do público. O que é um alívio, considerando a bagunça com que foi desenvolvida a personalidade de Thor em seu próprio filme, mais um exemplo de que, quando se trata de roteiros, quanto menos gente envolvida, melhor o resultado final. Se bem que nem isso salvou Homem de Ferro 2, o longa da Marvel do ano passado. Mesmo contando com apenas um roteirista, Tony Stark foi tão mal trabalhado que se não fosse pela atuação de Robert Downey Jr., o personagem teria sido totalmente sabotado. Como já citei Thor, vale mais um comentário: nem o filme do deus nórdico nem este do Capitão conseguiram criar uma história de amor funcional. Em Thor, o problema era o desenvolvimento apressado demais; em Capitão América, o arco amoroso surge desnecessário, além de um tanto confuso. Peggy Carter (Heyley Atwell), par romântico de Steve Rogers, causa impacto na tela com seu uniforme militar, sotaque inglês e pose de durona – causando estranheza ao surgir usando um vestido vermelho, tentando uma abordagem mais sensual, sem sucesso.

Embora seja melhor que algumas produções anteriores do Marvel Studios, aquele gostinho de “prévia para Os Vingadores” ainda é bastante presente, um horrível fardo carregado pelos últimos longas da casa. O ano está no final, 2012 vem chegando, e com ele, o esperado longa-metragem com toda a super-equipe reunida. Vamos ver no que dá.

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