GTA III foi o game que elevou a Rockstar de uma semi-desconhecida softhouse norte-americana a uma das mais famosas e influentes desenvolvedoras do mundo. Mesmo sendo o terceiro, foi através dele que milhões de gamers tiveram o primeiro contato com a série, em grande parte responsável pelos mais de 100 milhões de PS2 vendidos ao redor do globo. Hoje, seu relançamento para smartphones e tablets tem tanta importância para a indústria mobile quanto teve para a Sony há dez anos atrás.
No primeiro ano de vida do PS2, não houve nenhum jogo que pudesse ser chamado de inovador. Todos os jogos eram apenas versões levemente melhoradas de games já vistos no PS1 – nem os gráficos eram grande coisa, pois os desenvolvedores ainda estavam explorando o hardware do console. Tudo mudou quando GTA III chegou ao mercado em outubro de 2001: com seu clima de libertinagem e um mundo aberto pronto para ser explorado, o game conquistou tanto o público quanto a mídia especializada, e mostrou do que a nova geração daquela época era capaz. Nos dias de hoje, por mais que o mercado de jogos para plataformas móveis cresça a passos largos, ainda tem muita gente (incluindo aí muitas empresas) que se recusa a enxergar esse crescimento, com a ideia de que games para celular se resumem apenas a “jogos da cobrinha” e Angry Birds. O lançamento de GTA III para smartsphones carrega a chance de abrir os olhos do mundo para o mercado de games mobile, da mesma forma, que, há dez anos, abriu os olhos de mundo para o PS2, quando este ainda gatinhava.
Por mais que esse relançamento de GTA III simbolize algo positivo para o indústria gamística, uma certa observação deve ser levada em conta: o game envelheceu mal – muito mal, sendo realista. O jogo praticamente inaugurou o sub-gênero do “mundo aberto”, mas todos os títulos desse estilo que vieram mais tarde adicionaram alguma coisa ao sub-gênero. As próprias sequências de GTA III mostram isso, cada uma adicionando novidades substanciais para deixar a série renovada. O sub-gênero do mundo aberto criou asas, saiu dos estúdios da Rockstar e deu origem a diversos outros games, como NARC, True Crime, Crackdown, Saint’s Row; até mesmo jogos de super-heróis adotaram os estilo, como Spider Man 2 e Hulk: Ultimate Destruction. Cada um desses games (além de muitos outros, a lista é enorme) adicionou novidades e incrementações ao estilo de mundo aberto, e foram experimentados por milhões de jogadores ao longo dos anos. Acredito que uma boa parte desses gamers jamais teve a oportunidade de jogar o game que originou isso tudo, e quando jogarem, aposto que a decepção será enorme.
A mídia especializada vem divulgando esse relançamento através de frases como “um dos maiores clássicos da história dos games“, “um dos games mais polêmicos de todos os tempos”, algo que é ruim para o jogo, pois acaba deixando as expectativas de todos lá em cima. E, levando em consideração que uma parcela significante dos gamers jamais jogou ou então não joga GTA III há anos, o resultado será catastrófico.
Alguns games envelhecem muito bem, e um belo exemplo disso é Super Mario World. O jogo foi lançado há 21 anos, para um console de três gerações atrás, ganhou pelo menos quatro sequências principais (Super Mario 64, Super Mario Sunshine, Super Mario Galaxy e Galaxy 2) e continua sendo um ótimo jogo até hoje. Quer fazer o teste? Sequestre aquele seu primo de 2º grau que passa horas na frente da TV chacoalhando o Wiimote ou sacudindo os braços abestadamente com o Kinect e apresente-o a Super Mario World. Garanto a você que o infante apreciará a experiência tanto quanto ele gosta de brincar com seus objetos dufuturu. Agora pegue aquele seu irmão chato que curte aloprar a vida do maior número possível de civis em GTA: Rio de Janeiro (sim, essa porcaria existe e é um mod escrotíssimamente mal feito de San Andreas) e coloque-o para jogar GTA III. Ele se adaptará fácil aos comandos – que são basicamente os mesmos – mas o nível de diversão será bem mais baixo. “Por quê tão poucos tipos de veículos?”, “não tem motos nesse jogo?”, “aviões helicópteros, cadê?”, “como assim, não dá pra comprar casas?”, “onde pego o jetpack?” serão apenas algumas das perguntas que a jovem criança faria.
GTA III foi um jogo importantíssimo para sua época, disso não há dúvidas. Mas não resistiu às impiedosas forças do tempo, se tornando um game datado, até mesmo chato. E por mais que seu lançamento para smartphones e tablets seja um marco importante, duvido que muitos tenham força de vontade suficiente para jogá-lo até o final.
