Crítica – Missão: Impossível: Protocolo Fantasma

Há cerca de dois anos, quando Encontro Explosivo estreou, o papel de Tom Cruise como astro de ação foi contestado. A contestação ganhou ainda mais notoriedade quando o filme não foi bem nas bilheterias, e a Paramount chegou ao ponto de seriamente pensar em aposentar o ator da franquia Missão: Impossível, temendo que um novo longa da franquia de espionagem também obtivesse uma arrecadação ruim. O tempo passou, os executivos da Paramount acabaram por se convencer de que o fracasso de Encontro Explosivo se deu por vários outros fatores (entre eles, a fraquíssima e nada inspirada direção de James Mangold), e deram mais uma chance a Cruise neste Missão: Impossível: Protocolo Fantasma.

Chance essa, que o ator agarrou com força total. Depois desse filme, vai ser difícil encontrar alguém dizendo que ele não serve mais para bancar o herói de ação. Cruise sua a camisa, pula, luta, dirige, e corre, corre muito! A perseguição a pé durante uma tempestade de areia que o diga! Fica a impressão de que Cruise quis provar sua relevância como astro de ação, e isso ele consegue com louvor. A cena em que ele escala o prédio mais alto do mundo, em Dubai, rivaliza facilmente com aquela do segundo filme onde seu personagem aparece escalando uma montanha no meio do deserto sem auxílio de qualquer equipamento.

No quarto longa da série Missão Impossível, Ethan Hunt (Tom Cruise) é acusado de ter explodido o Kremlin de Moscovo (sede do governo da Rússia), trazendo de volta a antiga tensão da Guerra Fria entre Rússia e Estados Unidos. Como retaliação, toda a IMF (Impossible Mission Forces, ou Força Missão Impossível) é desativada, e seus ex-integrantes são todos presos. Para comprovar a gravidade da situação, até mesmo o lendário Secretário – sim, aquele que é citado em todos os convites para missões recebidos pelos agentes – dá as caras, interpretado por Tom Wilkinson numa rápida ponta. Cabe a Hunt, junto a alguns poucos agentes, provar que a IMF não teve relação alguma com a explosão, e encontrar o verdadeiro culpado.

A equipe de Hunt neste filme é formada por Brandt (Jeremy Renner), Benji Dunn (Simon Pegg) e Jane Carter (Paula Patton), cada um com determinada função na trama. Carter, assim como a Zhen Lei de Missão: Impossível III, utiliza toda a sua sensualidade para atrair inimigos e assim extrair deles valiosas informações. Benji Dunn é o hacker, responsável por quebrar a segurança dos prédio para ganhar acesso às câmeras, elevadores e afins. O personagem já havia aparecido no longa anterior, mas ganha muito mais destaque dessa vez. Ele é um pouco atrapalhado e responsável pelos alívios cômicos da projeção, que funcionam muito bem graças ao ótimo timing do ator Simon Pegg. Já o personagem Brandt entra meio que por osmose na equipe, e detalhes sobre ele vão sendo revelados no decorrer do filme. Vale salientar que este foi o único personagem interpretado por Renner em 2011, pois aqueles parcos segundos em Thor onde o ator apareceu vestido de Gavião Arqueiro foram tão insípidos que nem foi mesmo possível analisar a atuação do sujeito.

O roteiro, escrito por André Nemec e Josh Applebaum (roteiristas veteranos das séries de TV) surpreende por não tratar os personagens secundários como meros objetos, como se estivessem ali apenas para servir a um propósito e pudessem ser descartados logo em seguida. A dupla acerta ao dar mais de uma faceta a esses coadjuvantes. Benji Dunn, por exemplo, não é simplesmente “o hacker“, exercendo também a função de alívio cômico – um ótimo alívio cômico, acrescento. Jane Carter sofreu um golpe muito forte, e tem que lidar com o sentimento de vingança que cresce dentro dela; Brandt entra na equipe como um completo anônimo, mas logo sabemos que ele também tem problemas com seu passado nebuloso. Enfim, esses detalhes de background acrescentam peso aos personagens, tornando-os mais palpáveis.

Ainda sobre o roteiro, a decisão de não utilizar as tradicionais máscaras da série provou-se mais que certa, acrescentando uma tensão extra em certos momentos do filme. Quando vemos Ethan Hunt entrando no Kremlin disfarçado de militar russo, apenas com farda e bigode como disfarce, impossível não ficar tenso. Outro momento em que isso acontece é durante a negociação no hotel em Dubai. Naquela cena, a falta das máscaras fazem até mesmo os próprios agentes temerem o sucesso do plano. Isso, aliado à boa montagem de Paul Hirsch (que retorna à franquia após quinze anos), ajuda a criar a tensão do momento. Essa foi uma ótima ideia dos roteiristas, e é disso que a série precisa: inovações. Pena que a dupla não levou esse conceito mais à frente, perdendo a chance de se livrar de alguns clichês internos da franquia. O maior desses clichês é o plot que sempre coloca Ethan Hunt para salvar o mundo sem ajuda da IMF. Esse conceito já apareceu tanto no primeiro quanto no terceiro filme, provando que já é hora de pensar em algo novo.

Além dos roteiristas, outro que marca sua estreia na série é Brad Bird, diretor oriundo das animações. É dele o longa Gigante de Ferro, uma emocionante porém pouco lembrada animação. Em seu caminho pela Pixar, Bird realizou OsOs Íncríveis e o superestimado Ratatouille. Aliás, foi seu trabalho realizado no filme estrelado pela família Incrível que acabou lhe rendendo o convite para dirigir este novo Missão: Impossível. No filme de 2004, Bird provou-se um diretor versátil, transitando da animação tradicional para a computadorizada sem problemas. Agora, o cineasta dá um salto ainda maior: sai completamente do ramo da animação, para filmar um live action. E se sai muito muito bem, como pôde ser observado. A forma como Bird realiza um travelling do quarto do hotel, passando por cima de Ethan Hunt e logo em seguida dando ao espectador a visão da enorme altura em que os personagens se encontram é sensacional, chegando inclusive a dar uma leve sensação de vertigem. Poderia também citar o momento em que um carro capota e a ação é mostrada de dentro, algo que pouquíssimos diretores (incluindo aí Christopher Nolan) têm coragem de fazer, e apresenta um ponto de vista inusitado para algo que os espectadores já viram inúmeras vezes. Obviamente há mais exemplos, mas o ideal mesmo é ver na tela como Brad Bird tira proveito da câmera física, um fascinante brinquedo novo para alguém que há anos trabalhava somente com animação.

Bird aceitou tão bem o uso das câmeras físicas que decidiu deixar o filme o mais realista possível, nunca deixando com que o CG (técnica de animação utilizada nos seus dois últimos filmes) roube a cena. Até mesmo quando o recurso se faz necessário, como na sequência da tempestade de areia, ele o usa com cautela. Nessa sequência em específico, repare que a tal tempestade só é vista de longe. Quando ela se aproxima o bastante do personagem de Cruise, Bird posiciona sua câmera num ponto alto, dando ao espectador a visualização de uma grande sombra que se aproxima perigosamente do protagonista. Genial, eu diria. Outro momento com uso cauteloso de CG é o da explosão do Kremlin. A câmera foca Tom Cruise de frente, correndo o mais rápido possível para longe do Kremlin, visível às suas costas. A explosão acontece, a câmera treme, a cena acaba. Pronto. Para quê mostrar mais? Isso é Missão: Impossível, não um filme catástrofe qualquer.

Mas engana-se quem pensa que Bird esqueceu suas origens nesse seu primeiro projeto live-action. Se em Os Incríveis o cineasta fez um referência a Missão: Impossível, trazendo a clássica frase “essa mensagem se auto-destruirá em cinco segundos”, agora é a vez deste Protocolo Fantasma fazer uma referência ao filme da família super-poderosa. Alguns mais atentos irão se lembrar de um momento durante o prólogo de Os Incríveis onde o Sr. Incrível, logo antes de abrir as portas para entrar em sua cerimônia de casamento, é alertado pelo amigo Lúcio a remover a máscara, ainda em seu rosto. Já no longa-metragem aqui analisado, há um momento em que os personagens Ethan Hunt e Brandt estão prestes a entrar num quarto de hotel, para uma certa negociação. Segundos antes, Brandt alerta Hunt para que tire seus óculos de escalada, ainda no rosto. Um homenagem singela, mas muito satisfatória para quem consegue pegar.

Neste quarto longa, a franquia Missão: Impossível provou ainda ter espaço para pequenas inovações, mas ao mesmo tempo evidencia certos aspectos de sua fórmula que precisam ser urgentemente alterados para evitar a caída na mesmice.

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